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29.1.08

cores na chuva




dia de chuva em são paulo. um ponto de ônibus numa rua do centro. muitas cores em meio às gotas incessantes.

mas abriria mão dessas cores se pudesse colocar sobre elas um teto qualquer que abrigasse os donos dos guarda-chuvas - devidamente fechados - e também os sem guarda-chuvas, desavisados do humor oscilante do céu da metrópole.

porque é horrível pensar que a falta de cuidado com pessoas possa produzir uma imagem singela.

:.
foto: denio maués

6.1.08

só pra dizer

hoje, ela não queria conversar: ligou só pra dizer “obrigado”. eu disse que, imagina, não precisava. ela disse que fui muito importante naquele momento. eu disse que faz parte da vida fazer o que fiz. ela disse que deu trabalho e eu disse que faria novamente. ela, mais uma vez, agradeceu. e eu disse "obrigado" pelo agradecimento. desligamos.

2.11.07

essas coisas





sp, rua da consolação.
sinal verde para os carros. 1 e 2 na calçada.

1: e o beto? tem visto ele?
2: o beto?...
1: nunca mais eu falei com ele.
2: pois é, rapaz... os pais dele morreram.
1: quê?!
2: morreram. no início do ano.
1: os dois?! de uma vez?!
2: não, não foi de uma vez. mas teve pouca diferença...
1: é mesmo?!...
2: o pai foi o primeiro. e a mãe foi logo depois – morreu de tristeza.
1: é mesmo?!... e como o pai dele morreu?
2: ah, ele tava bebendo muito. bebia todo dia.
1: é mesmo, é?!...
2: bebia. e não tinha hora, viu? podia ser a hora que fosse. parou até de trabalhar! até que um dia o corpo não agüentou. e depois de dois meses foi a mãe... o betão ficou mal, viu?

sinal amarelo.

1: é... essas coisas acontecem.

sinal vermelho. os carros param, eles atravessam a rua e a tarde segue.

28.10.07

pele preta, olhos azuis





em uma tarde qualquer do século vinte e um, ela disse viver com medo de assaltos e que hoje é mais difícil de se reconhecer um ladrão:

– porque antes, geralmente, eles eram negros!

ela também analisou a violência urbana e intuiu que a causa, em são paulo, é o crescimento das favelas provocado pelas pessoas pobres que vêm tentar a vida. logo, a solução seria impedir essas pessoas de virem para cá:

– talvez com alguma lei que limitasse a entrada na cidade!

mas ela estava muito feliz porque sua sobrinha foi escolhida entre mil e trezentas crianças para fazer um comercial de hambúrgueres e ela tem olhos azuis lindos:

- lin-dos!